Mundo das Ciências

SOS – A Silenciosa e Mortal Hepatite C

Posted on: 19/05/2009

 

Karen Matzenbacher em entrevista ao Ciência Hoje relembrou que o vírus da Hepatice C pode matar

 

“Não saber é ruim, não querer saber é pior, mas não se preocupar com as consequências dessa omissão é imperdoável”.

Assim escreveu Karen Matzenbacher (ex Karen Jardel) numa carta enviada a Val Neto – autor do «Samba do Golo», música que fez em homenagem a Mário Jardel quando jogava no Sporting Clube de Portugal – a propósito da Hepatite C.

 karen Ribeiro

Karen descobriu doença aos 33 anos

O Dia Mundial da Hepatite é assinalado amanhã (dia 19 de Maio), essencialmente, em Lisboa e no Porto, com uma forte campanha que terá mesmo um caixão (na capital será no Rossio e na cidade Invicta na Praça do Molhe, na Foz) na tentativa de sensibilizar consciências.

Também serão distribuídos folhetos informativos e preservativos.
A apresentadora da Sport TV, que dá cara em Portugal pela campanha de sensibilização da doença, é madrinha do blog do músico – com quem se correspondeu sem saber quem era – e da Associação. O autor da página e antigo primeiro presidente da SOS Hepatite Portugal, Lourival Neto (Val Neto), faleceu, não de Hepatite C (porque conseguiu negativar o vírus), mas de uma das consequências da terrível doença.

Após varias análises e exames, entre os quais uma ecografia e um TAC, chegou à conclusão que tinha um tumor no fígado, também conhecido como carcinoma hepático ou cancro do fígado. Este provocou um entupimento da veia na porta do órgão, razão pela qual foi acometido de fortes dores e de um trágico final.

Já Karen Matzenbacher descobriu a enfermidade a tempo de tratá-la, apesar de ter o fígado danificado em 50 por cento. Nunca bebeu e descobriu através de um exame de rotina, em 2004, já com 33 anos; no entanto, estava infectada desde a nascença.

A ex-mulher do futebolista assinalou ainda que decidiu usar a sua imagem para ajudar e sensibilizar pessoas, porque, “infelizmente, mesmo nos dias de hoje, há muito preconceito”. Um dos episódios mais marcantes e que contou ao Ciência Hoje foi o facto de moradores vizinhos da associação serem contra a abertura da sede por verem-na tão perto das suas casas.

“O problema é haver falta de informação”, porque a Hepatite só se contagia através do sangue, explica. Como mensagem, a madrinha da SOS Hepatite Portugal, relembra: “Deve fazer-se o rastreio, porque a doença mata, mas também tem cura se for diagnosticada a tempo”.

Um em cada 12

«Eu sou o número 12» é o mote da campanha mundial. Uma pessoa em cada 12 está infectada com a doença – Hepatite crónica B ou C. Já em Portugal, os números descem, mas mesmo assim verifica-se um em cada 37. A maioria não sabe que tem o vírus e é por isso que a actual presidente da associação avisa: “É completamente assintomático e só com o rastreio é que se descobre”.

Emília Rodrigues, fundadora (com Val Neto) e dirigente da SOS Hepatite, no nosso país, conta que lhe têm chegado pessoas que “são portadoras da doença há quase uma vida”, como, por exemplo, antigos combatentes que estão infectados há 40 anos. “A guerra colonial terminou há 35 anos e só descobriram agora e por acaso”, assinala ao Ciência Hoje.

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 Emília Rodrigues, presidente da SOS Hepatite

O único sintoma é o cansaço, no entanto, nos dias que correm, com a azáfama da vida pode ser ignorado. Acrescenta ainda que “muitos dos inscritos só se aperceberam porque decidiram dar sangue ou porque vão comprar uma casa e têm de fazer um seguro de vida que os obriga a fazer o teste”.

Nalgumas situações, o estado avançado pode ter consequências nefastas, como foi o caso do “primeiro presidente, que morreu três meses após a inauguração da sede, com cancro no fígado”.

A dirigente da instituição avança que se celebra a data com mais ênfase nas duas cidades (Porto e Lisboa) porque outras autarquias “não se disponibilizaram a ajudar” e avisa: “É importante fazer o rastreio e sensibilizar as pessoas em todo o país, porque qualquer um de nós pode ser portador do vírus sem saber e quem o for não deve beber álcool porque ajuda a doença a reproduzir-se”.

Travar a luta 

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Rita Monte relembra que doença é silenciosa

Ana Rita Monte, uma das responsáveis pelo pólo da associação no Porto, completou recentemente 29 anos e mostra-se bem de saúde. A empresária descobriu que estava contaminada em 1998. “Na altura, havia pouca informação sobre o tratamento e sobre a doença e disseram-me para não me preocupar porque os valores eram baixos, mas incentivaram-me a guardar segredo para evitar a descriminação”, conta.

O vírus parecia controlado, mas por volta de 2005, começou a pensar em engravidar do primeiro filho e decidiu refazer exames por cautela. O resultado deu positivo para a Hepatite C e “a luta recomeçou”. A partir daí, teve de passar a ir ao hospital quase todos os meses. “O pior não é a doença, porque não existem sintomas, mas sim o tratamento, que dura um ano (42 semanas) e consiste na toma de uma injecção semanal e quatro comprimidos diários”, refere.

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Associação foi fundada por Val Neto e Emília Rodrigues

Para Ana Rita, os efeitos secundários foram atrozes. “Emagreci dez quilos, cheguei à magreza extrema e psicologicamente também me fui muito abaixo”. A primeira vitória foi dada ao fim de três meses, quando deu finalmente negativo, mas confessa que nunca teria conseguido sem o apoio da família, amigos e da associação.

“O facto de ter recebido ajuda de uma pessoa que não me conhecia [Emília Rodrigues] e que respondia prontamente a qualquer dúvida ou apelo, foi a principal razão que me deu vontade de auxiliar quem está a passar pelo mesmo”, sublinha a responsável, que suspeita ter contraído o vírus quando fez uma tatuagem.

Apesar de ter de continuar a ser vigiada durante três a cinco anos, hoje, Ana Rita Monte sente-se bem e “tal como antes de iniciar o tratamento, já que é uma enfermidade silenciosa”.

Números e comportamentos de risco

Segundo números da associação, estima-se que 120 mil pessoas estejam infectadas com a Hepatite B e 150 mil com a C. A Hepatite A está praticamente erradicada. Em cada cem doentes que não detectem o vírus a tempo, uma média de 20 poderá desenvolver cirrose e três a cinco, cancro hepático.

Das doenças do fígado, considera-se que a C seja a mais perigosa, porque o portador pode a desenvolver até 20 anos sem qualquer sintoma. Transmite-se exclusivamente através do sangue. Portanto, dois terços das infecções verificam-se através da partilha de utensílios empregues no consumo de drogas injectáveis ou inaláveis e transfusões de sangue.

No entanto, também são um risco os acidentes com instrumentos perfurantes e cortantes como utensílios de manicura, pedicura, corta-unhas, ainda se considera perigoso dividir escovas de dentes ou piercings, assim como fazer tatuagens (devido às agulhas ou à própria tinta onde é mergulhada, se não forem usadas pela primeira vez).

Não existe comprovação de contaminação através de fluidos corporais como saliva, suor, lágrimas, sémen ou leite materno. Não existe transmissão do vírus C com abraços, beijos, partilha de talheres, roupa, pratos ou copos. O teste de detecção consiste numa simples análise de sangue (anti-VHC) e é totalmente gratuita, seja ao nível de assistência médica pública ou privada.

Por seu lado, a Hepatite B já apresenta sintomas semelhantes a uma gripe: febre, mal-estar, desconforto, dor abdominal e nas articulações e erupções cutâneas. Mais tarde, pode aparecer icterícia, a urina tornar-se escura e as fezes mais claras do que o habitual. O contágio pode ser através do contacto com o sangue e fluidos corporais de um infectado ou outras já acima referidas.

A instituição é composta por pessoas que têm ou tiveram o vírus e já conta 2500 inscritos – 70 por cento dos quais são infectados e os outros familiares. Sedeada em Lisboa, a SOS Hepatites tem já quatro pólos – Chaves, Porto, Olhão e Santarém. Muitas caras conhecidas dão apoio a esta causa, tal como Simone de Oliveira, Vitor Norte, Fernanda Freitas ou José Figueiras, entre outros. Para assinalar o dia Mundial dedicado a esta maleita, prevê-se a inauguração de um quinto estabelecimento amanhã, em Coimbra.

         :: 2009-05-18 Por Marlene Moura

in Ciência Hoje

5 Respostas to "SOS – A Silenciosa e Mortal Hepatite C"

tenho hepatite c e estou fazendo uso do interferom e os comprimidos esta sendo muito dificil acho q não vou suporta

Olá Aparecida. Pois, imagino que seja muito difícil o tratamento, mas tem que ter fé e acreditar que vai conseguir superar esta dura etapa da sua vida. Conheço alguém que também fez tratamento e que também passou mal, mas hoje está muito bem. Mantenha a esperança e viva um dia de cada vez.. Acredite na sua recuperação. Rápidas melhoras para si.

Olá Mila,
Uma das coisas que ainda me continua a fazer confusão, é como é que nalgumas situações, os profissionais de saúde que lidam com sangue, conseguem fazê-lo sem usar luvas…
Eu como utente, poderei pensar: ” e se aquela pessoa que me está a atender tem Hepatite…por exemplo?”.
Depois o que acho mais estranho, mas isso deve ser pela novidade, é que “consomem” álcool em gel de uma forma assustadoura…será pela novidade, e o outro já passou à história?
Sou contra a 1ª situação, mas de pleno acordo com a 2ª, desde não aconteça haver à porta da casa de banho álcool em gel, mas dentro da casa de banho não haver sabão para lavar as mãos, como me aconteceu num hospital.
Irreverente: Nanda

Bom dia. Antes demais quero pedir desculpa pela minha ignorância, mas preciso de esclarecer uma dúvida. Se sujar roupa, jeans, calças sarja, etc, com sangue contaminado com o vírus da hepatite c, como devo proceder para lavar a roupa e matar o vírus. Mais uma vez peço desculpa pela minha ignorância. Obrigado

Olá, Luís. Quero pedir-lhe desculpas por só agora lhe responder mas não tive oportunidade de o fazer antes. Além do mais não sabia responder à sua pergunta, o que me levou a ter que a pesquisar. Acredite que não foi fácil obter a resposta para a sua pergunta. Confesso que fiquei bastante surpreendida pela dificuldade em obtê-la.

Pelo que pude perceber o vírus que provoca a Hepatite C fica inactivo quando exposto:

– a solventes orgânicos e a detergentes
– a temperaturas de 60º C durante 10 horas ou a 100º C durante 2 minutos, em solução aquosa
– a formaldeído (na concentração de 1:2000) a 37º C por um período de 72 horas
– e quando irradiado por radiação ultravioleta (havendo, segundo li, algumas dúvidas quanto a este processo).
Prometo continuar a investigar e logo que tenha uma resposta melhor divulgo-a. Obrigada pelo seu interesse e curiosidade, é assim que aprendemos!

Consulte também este link:
https://www.topsaude.pt/PortalTopSaude/FileGet.aspx?FileId=675

Olá Luís. Tenho novos dados recolhidos junto da Associação Grupo de Apoio SOS Hepatites.

Assim, a Hepatite C não se transmite pela roupa mas sim pelo sangue contaminado em contacto com o sangue não contaminado.

A percentagem da transmissão sexual é baixa e mesmo assim, para acontecer, tem que haver sangue nos 2 parceiros durante o acto sexual.
Os parceiros deverão usar preservativo nas relações anais ou durante o período menstrual mas, nos casais monogâmicos fica à consideração dos doentes e dos/as parceiros/as.

E a lixívia é o único detergente que mata o vírus.

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